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As Artimanhas viciosas: Vicious streaks

Pequeno blog de uma perigosa gamine em conflito
December 12

e ponto final.

As atividades nesse blógue estão oficialmente encerradas. Por hora, para quem quiser manter algum contato comigo, que se valha do endereço http://www.histrionissima.blogspot.com , e de lá, caso se mostre ainda mais interessado, continue sua busca. A microsoft é vilã, e como eu não nasci para ser mocinho, fui-me embora para um endereço onde eu possa pelo menos ser dona do meu próprio template. O novo blógue, que conta já com meio aninho, foi criado principalmente porque minha idéia sobre o-quê-serviria-um-blógue mudou, e se evoluiu ou não o problema é do olho do dono; conheço gente que prefere o viciousstreaks, outros que preferem o histrião: e eu, como não gosto de me meter em bafafá, prefiro me manter em cima do muro.
 
Minha verborragia é a mesma, só que o fundo dessa vez é branco e não azulzinho. Ao meu ver, o blógue dois é tão bem escrito, editado e desenvolvido quanto este, sem o prejuízo de cair na monocordia que esse, há um tempo, padecia. Lá eu sou mais livre, e nada de virem me dizer que "ah, suas análises do cotiano eram bem mais afiadas" e baboseiras do gênero porque simplesmente descobri que não só de Lya Luft vive a literatura blogueira - muito embora o nível não seja mesmo muito alto.
 
O post abaixo é definitivo, e creio que se você anda fuxucando minha vida desde que abri esse espaço, seria de bom tom lê-lo, relê-lo, mastigá-lo, até conseguir algo além do momentâneo dele.
 
De quebra, vale informar que me tornei uma mulher feliz e desinteressante; a "gamine em conflito" do subtítulo aparece apenas como sombra pálida do final da minha adolescência até conseguir me encontrar com o verdadeiro Amor. E se isso foi piegas, todos sabem que esse é o modo mais fácil de dizê-lo. Afinal, é difícil falar de amor quando para os outros anda longe. Difícil mesmo.
 
Abraços aos que ficam, compreensão dos amuados, e beijos aos alheios.
 
Amanda M.
August 18

Crendindicies

Acredito sim em Arte e todas as formas de cultura, terminologias já implicitamente positivas, seja desde a parte mais entartet da República de Weimar até a predisposição de grãos de açúcar em uma pia de alumínio.   Creio também em extraterrestres, tanto que hoje de manhã estava compondo uma música chamada "astronauts", que soava profissional (até demais) devido à acústica solitária do banheiro. Ignorando meu talento de cantora à capella sobram porém algumas coisas que são no mínimo divertidas, desde comer ovos moles com açúcar até escolher a roupa para passar o resto do dia. Também, devido a certas questões envolvendo incompatibilidade de horários, meus banhos têm sido reduzidos ao drástico número de dois por dia – ou um, dependendo da hora em que a festa termina; logo, me vejo na urgência de escolher algo elegante o suficiente para o número 25 da rua Bambina (afinal, trabalho de costas para a rua!) e ao mesmo tempo super jovem e levemente relaxado para aquele campus querido.

Na verdade creio que a escolha das roupas certas para passar a manhã, o resto do dia e começo da noite é tão ou mais arte quanto pintar uma réplica da Guernica e outras referências menos rasteiras. Aliás, superficialidade soa divertida e mais, dá uma espécie de força incompreensível a quem a consegue domar com certo cinismo, se comprazendo em discutir idiotias sem contudo se sentir um retardado mental que grita "chão-chão-chão" em uma festa de família. Porém proteger-se com uma couraça invisível de sarcasmo não contribui em nada para a evolução do seu karma, ou do seu darma, conceitos com os quais só consegui me familiarizar por completo há menos de uma semana. No máximo constrói-se uma ética torta e uma aura um tanto blasé que bem dosada consegue resultados impactantes, e voilá, muitas vezes completamente inesperados. A ver: quem não tem vontade de falar com o menino de cara de mau que não abre a boca durante a aula? Ou com a garota que fica desenhando na carteira? Ou com o capitão do time de futebol que... ok, exemplo errado.

Creio que quando escrevo sobre o que vejo, leio, ouço e até mesmo sinto, muito embora a idade tenha no máximo me deixando confortavelmente entorpecida, mentalizo um copo de uísque cheio até a borda ornado com um cubo de gelo já meio derretido, um maço de Camel meio consumido ao lado do monitor e muito provavelmente um ventilador chechelento que despeja com seu tec-tec-tec apenas mais lufadas do bafo quente de Agosto. Ou, com um pouco mais de glamour e ao mesmo tempo sem me esquecer da auto-crítica, sou uma espécie de velha virgem, com uma garrafa de champagne   ao lado de uma embalagem meio comida de Doritos vestida com um robe de chamois cinza e muito provavelmente dançando tango com uma rosa já apodrecida.

Não que as visões de minha decadência latto sensu sejam de todo deprimentes. Pelo contrário. Desejo me acabar em alguma festinha de vícios, regada de excessos e provavelmente consciente de que não deveria estar lá, fazendo todas aquelas merdas que um dia, provavelmente após recusar minha segunda ou terceira proposição de noivado, me arrependerei amargamente. Espero contudo que nesse tempo já tenham reconhecido que o conceito de Vida é múltiplo e que é possível existir sem necessariamente implicar a organização de uma sociedade por estratos envolvendo idade, cor, sexo, herpes e bocetas na testa, ao mesmo tempo que creio estarmos irremediavelmente isolados, por um bom tempo, de outros seres das estrelas.   Seu nojo deriva da carne, e é até certo ponto compreensível, porque não me imagino falando com um pedaço de alcatra principalmente quando se trata de alcatra moída e sem pelancas. Se bem que devido ao aumento dos preços nas Sendas algumas pessoas devem ter desenvolvido certa afetividade...

Voltando contudo aos alienígenas, me lembro do primeiro livro que eu escrevi assim, à sério mesmo, e que com uma leitura anônima consegui minha primeira namoradinha. Na época eu cria em uma espécie de sinceridade e espontaneidade derivada do início da adolescência, conjugada com certo vício mal-curado de filosofias de desenhos cyber-punks japoneses, 1984 e aventuras de rpg que terminavam com brigas, dedo na cara, e tabuleiro virado. Enfim: escrevi esse livro antes de ler toda a sessão de russos e alemães contemporâneos na biblioteca lá de casa, e logo, antes de ler Kafka, o que me levou a cometer uma falha incrível. A estória se passava num tempo indefinido entre o passado e o futuro em um país de formação totalitária, onde de súbito o governo decide "adormecer" grandes contingentes de sua população humana por motivos desconhecidos.Uma moça porém escapa do feitiço e decide, ao lado de um dos cientistas que abortaram o projeto "Boa Noite Cinderela", transformar na missão de sua vida entrar literalmente nos sonhos dessas pessoas e assim despertá-las. E dá-lhe cenas de katanás rasgando monstros e pesadelos em pedacinhos.

Porém, a graça de todo livro, a tal sacada de infanto-gênia da oitava série, a musa torta vestida com folhas do caderno B da semana passada foi, ao final, revelar para a tal caçadora de sonhos que em verdade ela mesma estava presa dentro de seu próprio delírio. Triste não? Se eu fosse o Neil Gaiman já estaria na lista dos mais vendidos. Não é necessário descrever minha decepção, com queixo caído e tudo mais, ao perceber que esse negócio todo de um sonho dentro do outro e dentro do outro já é um clichezão não apenas nas narrações de ficção científica, como em filmes como "Abra sus Ojos" e inúmeros relatos de comatosos recém-despertos. O livro porém é escrito de um jeito simples, como que vestido de uma inocência virginal coroado por certas confusões envolvendo o uso de este-esse-deste e claro, crase à frente de pronome pessoal, numeral e substantivo masculino plural. Houve épocas em que me envergonhei dessa narração, principalmente das falhas primordiais envolvendo a coesão e a coerência, mas hoje só consigo pensar nesse livro com carinho. Enfim, creio que é assim que corre a vida.

Felizmente não encaminhei esse livro a nenhuma editora. Dado o número de narrativas patéticas e aventuras inter-estelares que deveriam soar no mínimo semelhantes a J. K. Rowling (porque Tolkien é pedir demais) mas parecem no máximo relatos escritos de filmes como aquele que colocava o John Travolta de dreadlocks, tive desde cedo consciência que deveria comer muito, muito feijão antes de nutrir alguma pretensão além da diversão em conjunto e preparação de drinks em festas na piscina. Afinal, não é preciso saber escrever para se ter noção se algo está ou não bem-escrito, e sim saber ler. Creio que desde cedo desenvolvi uma espécie de faro para bons livros, principalmente aquelas edições de capa dura e papel pólen macio da Cosac&Naïf, verdadeiras belezuras. Aliás, creio que li um ou dos Tolstoi dessa edição. Não tenho certeza. Foi um prazer conhecer Tchékov e Turguenêiev dentro daquelas embalagens resistentes, bem acabadas, cheirosas e macias. Uma experiência sem precedentes e pouquíssimas vezes repetida.

Já me questionaram porém várias vezes de qual seria a utilidade, no sentido mais prático o possível, de ter lido tantos livros. Bom, fora o fato de poder ter um personagem para associar a todas as pessoas da sua vida e criar uma certa paixão, muitas vezes infundada, em poder versar sobre os assuntos mais diversos desfilando opiniões alheias sem porém nunca citá-las diretamente; afinal, é melhor ouvir "Ei, eu sei que foi Gogol quem disse isso!" do que   "Mas nossa, como você sabe que o sistema burocrático na Rússia czarista permitia falhas tão grandes no litígio de terras e escravatura a ponto de permitir a contratação de servos já falecidos?" . A literatura também auxilia a aguçar a percepção do mundo, lançando um olhar crítico em relação a exterioridade capaz de dotar de certa maturidade aqueles que pouco viram. E melhora a escrita. Mas não existe fórmula mágica que permita a alguém contar uma estória de amor ou uma tese sobre pingüins mancos com início, meio e fim derivada apenas da leitura de bons livros. O mais fácil ainda é ser dotado do dito intelecto privilegiado, ou talvez a capacidade de processar o seu interior e conseqüentemente o exterior de forma única, e, se tiver sorte, sem precedentes. Intempestividades à parte, gostaria de dizer que de apenas um bom leitor podem nascer bons livros. Porém, é preciso de um tanto de talento com as letrinhas.

Percebo contudo que há tantas brechas no binômio conhecimento + talento que de certa forma é permitido à  produção literária considerada de qualidade pelos setor social chamado vulgarmente de "a intelectualidade" ser de um modo geral pífia. Como levar a idolatria certos livros beatnicks em detrimento de outros movimentos igualmente contestadores e criticar, sacripantas, autores como Thomas Mann. O que percebo é uma tendência odiosa a réplicas de uma narrativa beckettiana com toques de neo-concretismo, soando irremediavelmente falsa e pouco divertida. Se uma mensagem quer ser transmitida, que seja por um invólucro no mínimo claro e compreensível. Não adianta de nada dizer seu amor às baleias jubarte aos seres humanos através de códigos como o seu mugido marinho.

Continuo porém a acreditar na Arte, em suas mais variadas manifestações, seja em penteados afro até chaveiros nas pontas das mochilas. Sinto ainda a solidão típica dos que possuem certo conhecimento mas não podem transmiti-lo, ou ao menos dizê-lo em público, pois tem medo de parecer aos olhos dos outros agressivos. A superficialidade é o abrigo do cinismo. Que minha vida siga para sempre nesse estilo.

July 29

Classe dos Intelectuais Falidos, one-way ride, por favor

Houve uma pequena discussão hoje de manhã - onde, como é de praxe, abaixei a voz e escutei o palavreado inflamado de terceiros - sobre qual seria nossa classe social. Minha mãe, leitora da  revista VESGA, afirmou que fazemos parte dos 22% capazes de compreender um texto em língua portuguesa do Oiapoque ao Chuí  e fazemos parte da classe A. Meu irmão riu: classe A? Só se for a base! E completou: intelectuais falidos, isso sim. Bem, Ivan nunca abriu um livro na vida - muito menos os escolares -  e, seguindo a tradição familiar masculina, anda cuidando do físico em uma academia.  Acabou de repetir em cinco matérias por pura preguiça: não é uma gracinha?
 
Andei conferindo nossos bens. No máximo, a casa em que moramos vale setenta mil reais. Não temos carro, embora moremos em um bom bairro, perto da praia (ok, aterro do Flamengo), do Centro da Cidade, metrô e outras facilidades. É certo que nossa casa é uma espécie de loft-retrô, cujas poucas paredes estão amontoadas de quadros no estilo impressionista, livros raros, e algumas televisões. Meu preceptor eletrônico (porque já passei da idade de ter babá) deve valer em torno de três mil reais - estourando. Vocês não tem idéia como esses monitores de lcd baratearam... na ponta do lápis, cheguei à conclusão que somos da classe B. B+. E que não dá pra viver sem trabalhar.
 
Sempre achei o máximo esse negócio de viver muito com pouco. Afinal, estamos só de passagem ( li isso numa camiseta; genial , não?  ). Tenho algumas blusas, duas calças jeans, duas saias (iguais), um tênis (em bom estado) e algumas bolsas. Todos em estilo clássico. Creio que para seguir à risca a definição do meu irmão - intelectuais falidos - tenhamos que tornar nossa pobreza meio remediada em estilo próprio. Não primar muito pela limpeza, ser capaz de voltar à pé pra casa apenas para poder tomar um café gelado com baunilha, dormir em bancos de praça... enfim, incorporar uma persona tão fútil quanto qualquer patricinha cursante de direito na PUC e ao mesmo tempo com um verniz neo-pobre que é a cara da ECO (dos sonhos). Definitivamente, é um charme beber em um boteco pé-sujo usando sua única roupa chique, primorosamente maquiada e exibindo seu lindo zippo de camelô, assim como é chique entrar em um restaurante caro com a calça jeans puída e olheiras de cinco dias.
 
Essa mescla é a cara do Catete. Mistura de zona sul com centro da cidade, já foi um dos bairros mais caros do Brasil república. Pré-JK, claro. Afinal, desde que a capital saiu do Rio para Brasília o Catete caiu em franca decadência. Conserva porém certa elegância sessentista conjugada com uma alegria suburbana, permitindo que velhos sujos fritem linguiça em frente ao prédio em que madames pegam sol pela manhã. Livrarias preciosas em frente a camelôs, brechòs com colares de pérolas e casacos de peles ao lado de cabeleireiros,  lojas de grife e lavanderias, o Catete é isso aí.
 
Bom, não precisa dizer que moro no Catete. Também, depois de todas essas definições, já estava mais do que na cara... não teço odes ao meu bairro pois seu que seu charme é seu maior problema. Como uma puta gasta que ainda usa roupas de vedete, devo dizer que a decadência do Catete o transforma em meu pequeno Brooklyn carioca. Estupidez? Talvez. Mas penso que é o local perfeito para minha família, composta por intelectuais falidos, viver.
 
Creio que somos um espelho do bairro. Como sou lerda com metáforas...
 
A falência adquire um gosto inebrtiante quando é regada a prosecco e, é claro, shitake. Sem mais.
July 16

Olhos nus ou vestidos de luneta

Que Novos Baianos é fenomenal nem custa repetir. Aquela alegria com sotaque arrastado faz qualquer um abrir um sorriso antes de perguntar "quê que é isso, hein?" e  tentar colocar o disco ao contrário pra tentar entender as letras. Nunca tive talento para ripismos, muito menos inclinação para adotar samambaias e usar camisetas "fuck bush" compradas na Osklen, mas ultimamente adotei uma postura paz-e-amor a ponto de começar a escutar essas coisas da mpb setentista. Acabou Chorare rolando sem parar na minha vitrola eletrônica, quem diria... bom, das muitas rimas sem sentido do classicão chapado teve uma que me chamou especialmente a atenção; faixa 6, uns três minutos e pouco, "Mistério do Planeta", exatamente na parte:
 
Vou mostrando como sou e vou sendo como posso. Jogando meu corpo no mundo, andando por todos os cantos.

E pela lei natural dos encontros, eu deixo e recebo um tanto. E passo aos olhos nus ou vestidos de lunetas.

Passado, presente, participo sendo o mistério do planeta.

Já disse que a letra não faz sentido. Mas, como estou morrendo de saudades das aulas de interpretação de texto pré-Foucault, vou me arriscar em uma análise do discurso de Galvão e Moraes Moreira na pós-modernidade. Prepare a barra de rolagem preguiçoso de plantão que agora é hora de leituro-dinamizar...
 
A letra descreve de forma acintosa e rica em detalhes o princípio da ação e reação, embasada nos conceitos básicos da física Newtoniana afirmando que pela lei natural dos encontros, eu deixo e recebo um tanto , ou seja, que toda ação tem uma reação proprocional à energia desprendida pela ação e vice-versa, além de se valer dos parâmetros clássicos de não-linearidade temporal, presente nos pensamentos dos filósofos gregos pré-aristotélicos tendo sido modificado pela visão ocidental de tempo como uma seta linear rumo ao progresso; visão inaugurada pela sociedade hebraica primitiva, muito embora em alguns trechos da Torá se encontre frases de oposição a teoria, como em Eclesiastes 8,8 "(...)e não há nada de novo sob o sol." Na canção "Mistério dos Planetas" o eu lírico não apenas explora esse aspecto da imutabilidade do tempo, como também se embasa nas teoria da Relatividade de Einstein - que por sinal era judeu - principalmente na parte andando por todos os cantos; afinal, bem se sabe que não dá pra ir andando por todos os cantos sem que tal asserção seja puramente relativa, ou seja, em um universo paralelo onde seja possível sair andando pelo teto e até mesmo pelas tetas mundo afora, sem que tal comportamento seja classificado como anormal. Também há referências claras à astrofísica renascentistas, quando se descobriu o mistério da rotação do planeta através da observação dos astros aos olhos nus ou vestidos de lunetas , sem que haja porém perda do sentido geral no verso seguinte Passado, presente, participo sendo o mistério do planeta. Chego então à conclusão que o eu-lírico estava era perdido em um k-hole vendo seu corpo se distanciar de si próprio participando e sendo portanto o mistério do planeta. E ponto.
 
Cansei. Acho que você nunca mais ouvirá Novos Baianos com os mesmos olhos (?) depois dessa, hein. Ainda estou pensando se não deveria escrever aqui um libelo pela liberação de músicas chapantes via rádio fm antes da liberação das próprias substâncias, mas deixo esse debate para o eneCOM desse ano, em Salvador. Aliás, acho que só estou ouvindo o Acabou Chorare pra não fazer feio no meio daquela multidão noods. Será que dá certo?
July 10

Se quiser eu dou até o papelzinho, forneço até a canetinha...

Não agüento mais olhar para o lado e ver tanta gente frustrada por aí. Trocaram a Gloria Gaynor pela Avril Lavigne e deu nisso, um bando de maníaco-depressivos com pinta de emo que segundo o pastor fundador lá da Bola de Neve Church (nome estupidamente genial, morro de inveja) , ficam tomando yakult com chinelo na mão pra matar os lactobacilos vivos.

Puro vacilo merrrrrmão... se você anda tendo problemas com a vida, deixa comigo. Faz o seguinte: me dá uma lista com todas as coisas que você não conseguiu fazer a primeira metade do ano inteira que eu conserto pra você. Depois monto uma organização evangélica com o sugestivo nome de "Primeira Igreja da Sorte no Biscoitinho" e chamo uns quinze amigos para botar a coisa nos trinques.

O plano de ataque é o seguinte: eu viro seu Messias pessoal, você deixa seus problemas na minha mão que eu condenso eles em mensagens de biscoitinho da sorte e espalho pelo Mundo Verde sempre-um-pertinho-de-você. Se quiser eu dou até o papelzinho, forneço até a canetinha... só tem que me dizer onde é que dói que eu dou o meu jeitinho. Depois, eu faço outros biscoitinhos da sorte e transformo em hóstia (que não é pedaço do meu corpo porque antropofagia é coisa de modernista) personalizada. Legal, não?

Me dê mais dois anos que eu lanço teorias revolucionárias para a salvação em terra, pois esse negócio de inferno e paraíso é demodê, e em seguida divulgo uma linha esportiva inspirada em cartões de crédito estourados. Gostou da coisa? Ah, ainda tem mais: se você fizer um plano de fidelidade, o primeiro mês na minha Igreja é de graça. Com direito ao uso da academia da esquina e tudo mais.

Achou pouco? Pois saiba que os biscoitos da sorte são inteiramente de graça! Sim, INTEIRAMENTE de graça! Mas para ganhá-los você precisa fazer um plano de fidelidade pró-pré-pago com direito a 400 mints de graça em cultos locais. Mil vantagens para você! Pare de sofrer!

July 01

Só pode ser Piada

Acabei de escrever o texto mais estúpido da minha vida. O tema? O que é comunicação para você. A própria liberdade é o limite da verdade, existencialistas de banquinha de jornal  (que eu decorei por causa de um funkão do Bonde Cult com o sugestivo título de cachorra existencialista - "se eu tô livre? Como diria Jean-Paul-Sartre em 'O Ser e o Nada' ser consciente da causa em que minha ação é inspirada já transforma a própria causa em objeto trascendente impossível apreensão em um nível consciente..."). Afinal, o que é que eu entendo de comunicação? Até onde eu saiba, estudo é comunicação social, que como diz o nome, é a comunicação NA SOCIEDADE. O que é comunicação em termos gerais não faço idéia. Quer dizer... me arrisco.
 
E aí produzi uma lambança com cheiro de demagogia de jardim de infância. Reunião de pais e professores quando as crianças voltam das férias com verniz ultra-cult. Só não estou morrendo de vergonha porque esse texto foi poduzido como única nota em uma matéria  chamada Psicologia, cujas aulas, ministradas por um senhor já avançado em anos, só consegui assistir a uma.
 
Quero dizer; das aulas, só conseguir assistir a uma boa meia hora. Era impossível controlar o tédio. Depois de cinco minutos na cadeira, via-se estampado no rosto de todos os alunos o desejo primal de levantar-se da cadeira e correr pelos chão preto e branco da ECO rumo ao Sujinho.  Como não tenho talento pra masoquista, consegui com que o Pedro Willmersdorf assinasse meu nome em TODAS as aulas e caí na gandaia. Espertona eu, não?
 
Percebi o quão inútil era a aula do velhinho fofinho de voz baixa e monocórdia quando os dois maiores CRs da minha turma não tinham escrito uma linha sequer no caderno da matéria. Ora essa, as duas moças são verdadeiras escribas acadêmicas, contorcendo informações em hieroglifos para mim incompreensíveis; como assim não puderam escrever NADA em Psicologia? Decerto, a matéria simplesmente não lhes dizia coisa que valha. Comprovei nos outros vinte e cinco minutos de aula que consegui resistir há algumas semanas atrás (os cinco minutos anteriores foram gastos no primeiro dia) o quão desnecessário e inadimplente é o ensino de Psicologia para futuros comunicólogos. Por Freud, nunca vi nada tão chato na minha vida.
 
Enfim, a prova passada pelo dito professor constitui em uma pergunta simples: O que é Comunicação - para você. Simplesmente não é possível tirar menos que a nota máxima em uma avaliação tão personalista. Para completar, não foi especificado o MODO em que deveria ser escrita a prova; minha amiga Caroline G., caloura, já disse que quando for sua vez de realizar a tal prova, fará " um desenho que ocupará as duas laudas. Uma miscelânea que compreenderá, entre outras coisas, dois paramécios se "comunicando" e trocando plasmídeos! ". Nada mais justo.
 
Para conferir essa mancha na minha já mambembe carreira acadêmica, vide o blógue dois.
 
Eu sou uma besta, eu sou uma besta, eu sou uma besta, lah-lah-lah...
June 25

Muito solto solteiro aqui no Rio de Janeiro

Namorar saiu de moda há tempos. Não é novidade nenhuma; desde Beauvoir e seu vesguinho lindo esse negócio de fidelidade anda assim ó, mais demodê que ombreira em país tropical. Exceções famosas desde o tempo das cavernas nem dá direito pra citar. Exemplo de classe é aquela tal de Salomé: beija a cabeça mortinha do santo antes de dançar pelada no colo do papai. Uma performance e tanto, não acham?
 
Se dependesse de mim todo mundo andava que nem o Cabeção louco de balinha numa rave por aí: muito solto solteiro aqui no Rio de Janeiro. E pegando geraaaal! (sic) mesmo. Ou então, refletindo as mazelas sociais, niilismo e descrédito nas crenças formais religiosas e políticas, levava todo mundo a uma espécie de Orgia de Travecos. Assim, na paz do "ninguém é de ninguém mas se tu meter os zoião na minha mina leva tiro ok" , ergueríamos uma espécie de bastião à viadagem de final-de-semana, vadiagem indefiñada, e por vezes o uso da palavra bitch como marcador de intimidade e amizade profunda no discurso. Afinal, namorar está tão em desuso que o jeito é assumir a putaria. E erguer a cabeça. Biaaaatchs!
 
Não, não estou fazendo um retrato pessimista da minha geração.Que sou eu pra tanto? Ando porém muito cética  com aquele copinho de whisky mentalizado ao lado do teclado. Numa mesa onde todos estavam meio bêbados meio sóbrios (e mais perigosos do que nunca), vejo uma valorização não necessiaramente negativa do poder das drogas e a conseqüente descrença no relacionamento "namoro". Trocando em miúdos: sim, por dois bike eu arranjo dezessete VIPs; sim, por uma gota de LSD eu durmo com você; sim, eu pago o dobro pelo seu pó AGORA.
 
O pior é que acho tudo normal. E o melhor é que é normal mesmo. Usual. Aceitável. Olho com o rabo de olho e penso "por quê não?".
 
Tudo começa quando estamos todos muito soltos solteiros aqui no Rio de Janeiro. Brasil 2006, onde o melô dos tribalistas (aquele grude mesmo) virou estilo de vida. Sorrindo,  coloco os fones de ouvido e repito o refrão:
 
"All your dreams are over now
And all your wings have fallen down
All your dreams are over now
And all your wings have fallen down"
 
E viva a Tv no rádio.
June 08

Discreto e Contínuo

Admito, com a autoridade e a paciência de não-caloura, que Adorno estava certo. Nesses idos de música eletrônica, vídeo digital, photoshop e chiclete de bola, não há arte que sobreviva. Não há ser humano que não sinta ter sua vida aos pés do touro de bronze High Street - e, pasmem, até esmagado pelas patas da besta. O pior: não há Capela Sistina que não possa ser comprimida em pixels ou Mona Lisa que não possa ser transformada em código (segundo o Dan Brown, eu acho). E, segundo meu professor de Sistemas e Tecnologias de Comunicação, no futuro tudo será computadorizado a ponto de não existir mais diferença entre um ser humano... e uma mesa.

Leibnz deve estar rindo num canto, apontando o dedo para a cara amuada do frankfurtiano e dizendo cê sifu arshvoll. Ou coisa parecida. Afinal, Leibnz dizia que tudo pode ser transformado em algoritmos de compressão; é apenas uma questão de tempo. Um exemplo? Minha câmera digital, tão bonitinha e funcional, mutila as ondas da imagem a fim de transformá-la em pixels. Uma coisa viva como um sorriso, uma parede fria, duas meninas rebolando na pista, transformadas exatamente nos mesmos sistemas lógicos de compressão; aprisionadas, como imitações mal-feitas de uma vida que não pertence a mais ninguém. De doer.

De repente o virtual se fez tão presente na minha vida que me vi defendendo conceitos de inclusão digital e outras besteiras sem pensar o quão desnecessário isso é pra vida de um ser humano. É útil? É. Mas não passa também de puro fetichismo. E olha que quem fala isso é a dona de dois blógues, um fotológue, ex-viciada em orkut e émessene com 13 gigas de mp3 no itunes que não se priva de usar o scanner da salinha do PET para digitalizar seus desenho.

Dizem por aí que a renda per capta do planeta aumentou... mas será que os bens de consumo melhoraram? Desde aquele ossinho do 2001 não pararam de criar tecnologias que só se prestam para degradar ou pra transformar em Discreto o que antes era Contínuo. E, claaaaro, pra criar seres humanos mais gordos, hipermétropes e pseudoalizados.

É só se lembrar que a Xuxa tem uma voz de taquara rachada e encantou milhares de crianças por quase duas décadas. Adorno sabia das coisas... e devia era estar cansado de toda essa baboseira.

June 06

Simplicidade

Dia dez eu deixo a adolescência e viro gente grande no papel lavrado.
 
A cada dia dessa semana eu sou uma: tenho doze, treze, catorze, quinze, dezesseis, dezessete. Mas só dia dez tenho dezoito anos.
 
Tempo que voa... a d-Xis, a lojinha onde eu comprava roupas; a coleção de álbuns do U2. Os cartõezinhos que eu recebia e respondia. Memória viva, que passa, que vai, que volta.
 
Hoje é dia de mínimo. Amanhã excesso. Depois, festa. E aí vem um compêndio.
 
A cada dia que passa deixo uma gotinha no tempo. E isso me deixa muito, muito, muito feliz.
 
Só isso.
May 29

A carta de Fernando, a revelação de David e o destino de Paulo

Núd
 
Segunda-feira, vinte e nove de novembro de 199_
 
às nove horas de uma manhã de frio
 
(Paulo escreve)
 
A carta de Fernando não possuía mais que dez linhas, escritas em seu estilo simples e um tanto melancólico de homem entediado. Concentrada na estória de um tal David Evans - irlandês "encontrado em meio às algas nas pedras da costa sul" - descrevia em detalhes econômicos a personalidade do rapaz, ao mesmo tempo que clamava pela minha ajuda por conta de uma certa "tendência ao marasmo" presente na personalidade do moço. De início, não levei muito a sério as demandas de meu irmão; afinal, onde já se viu pedir ajuda de alguém que não se vê há mais de trinta anos? Porém, ao sentir a iminência da minha sétima década de vida, comecei a cogitar a possibilidade de injetar nova energia no meu corpo cansado e mente doída. Escrevi uma nota curta a Fernando e, sete dias após receber sua carta, liguei para meu agente de viagens, reservando uma passagem de ida para Núd. E foi assim, apressada e impensadamente, que meu destino foi selado.
 
(Fernando)
 
A família d'Azevero concentrara cerca de três quartos de toda a indústria pesqueira da ilha de Núd desde o século XVI, quando algum antepassado de nome já esquecido (reza a lenda) resolveu estabelecer um pequeno entreposto comercial. Como logo as terras do norte foram abandonadas pelos portugueses e tomadas pela indústria irlandesa, norueguesa, islandesa, etc, parte da família continuou em Núd enquanto os outros ora voltaram para Portugal ou decidiram tentar a sorte pelo mundo. Como Núd é uma ilha pequena, com reservas d'água limitadas, não houve grande disputa pelas suas terras, haja vista quedar-se também relativamente distante das áreas mais abundantes do bacalhau.
 
(...)
________________________________________________________________________________________
 
Poucos conhecem essa estória. Também, nem verdadeira ela é. É que ando um tanto melancólica.
 
 
May 23

Histrionissimo

É o lado b do lado b.
 
E tem um nome pra lá de comprido (como esse daqui).
 
Vida longa ao HISTRIONISSIMA.
 
 
_________
 
Não, viciousstreaks continua sendo o que sempre foi. O outro é apenas um b-side. Tipo aquelas bandas paralelas feitas por músicos hiperativos e coisas do gênero.
 
Mas por lá tudo o que é escrito aqui será subvertido. Entendidos?
 
May 21

Il - y -a?

Eram mais ou menos onze horas da manhã de um dia semana quando abri o soulseek. Um menino chamado Camilo havia acabado de me adicionar as a buddy. Eu sabia quem ele era por causa do orkut: participamos da comunidade da banda CocoRosie, um duo de irmãs que canta músicas desafinadas e bonitas pra quem eu rasgo seda pra caramba. O Camilo me indicou uma outra banda chamada Ilya, e me passou uma músca chamada Isola. De início eu não dei muita bola; peguei o arqueivo ouvi, e deixei pra lá. Mas alguma coisa me atraiu algumas semanas depois para aquela banda que de início eu nem sabia como se escrevia.
 
Olhei para o nome do álbum. Poise Is The Greater Architect. Belo nome, não? Procurei no orkut; nada. Nem sinal de quem poderia ser aquela banda de trip-hop meio triste, meio pertubardor. Tem uma banda homônima, com minguados dezoito mebros na comunidade, e stalkeando um dos tópicos li a seguinte informação:
 
 
Uau. Então estou ouvindo uma banda que nem comunidade tem no orkut! Isso é no mínimo emocionante.
 
Olhei então pra capa do álbum.
 
           
 
Ok. É um garota segurando cinco ovos com a barra do vestidinho. Parece ser uma menininha pelo corpo miúdo. Uma menina azul porém, em um fundo preto. Confesso que fiquei com uma pontinha de medo. Desde Black Box Recorder não vejo nada parecido.
 
Comecei então a ouvir o hit da banda, Disturbed. Que coisa! Milhares de sons difusos, um vocal meio arrastado, uma sensualidade com gosto de até-mais! Na letra, a vocalista canta:
 
" your love will leave you when I come back
  I've told you this before (...)"
 
Comecei então a caçar informações sobre o Poise Is The Greater Architect.  A primeira frase da primeira resenha que encontrei já dizia: Okay, so here's an album you can judge by its cover. Uau. Foi o suficente: baixei todas as faixas dessa banda de um álbum só e me dediquei a fazer propaganda positiva entre amigos.  É meu Joy Division do século XXI, meu Suede pós-adolescente, meu Portishead com sotaque ianque, meu My Bloody Valentine com duas guitarras suprimidas.
 
Recomendo. Soulseek neles!
May 15

Eu, hein

"Virei malando da Lapa!"

A frase saiu da boca de um estudante do curso de Ciências Contábeis, vestido feito um executivo júnior, quando colocou uma boina de lado na cabeça e acendeu um cigarro de filtro branco enquanto bebia ao lado de seus amigos no popular Sujinho, bar do campus da UFRJ na Praia Vermelha. Imediatamente, levantei-me da mesa ao lado e fui para casa. Afinal, será que aqueles boçais sabiam o que era um “malando da Lapa”? E será que é tão tênue assim a linha que separa um boêmio dos que gritam “chope, chope, chope” na hora de brindar?

Segundo a Wikipedia, boêmia, além de ser um país esquecido na Europa Central, é:

Boêmia. S.f. 1. Vida alegre e despreocupada; vida airada. 2. Vadiagem, pândega, estúrdia, estroinice.

Boemia S.f. Bras. V. boêmia mais duradoura..

Carioca Bras. Adj. 2 g. 1. De, ou pertencente ou relativo à cidade do Rio de Janeiro. 2. Natural ou habitante da cidade do Rio de Janeiro.

Boemia Carioca S. m. 1. Evento que busca levar às pessoas, por alguns momentos, a uma vida alegre e despreocupada, que pertence ou é relativo, unicamente, à cidade do Rio de Janeiro. 2. Evento que traz um pouco de vadiagem, pândega, estúrdia e estroinice aos naturais e habitantes da cidade do Rio de Janeiro, se utilizando, para isso, de música brasileira de primeira qualidade.
 

Pelo que entendi,  Boemia Carioca, é uma espécie de oba-oba pra inglês ver, regada a samba, caipirinha, bananas e sotaque portenho. Essa coisa boa que nasceu há mais de cem anos acaba se tornando um exótico espetáculo tropical, parte de um conceito tão nebuloso  de identidade nacional que nem vale muito a pena explicar. Afinal, onde nasceu a boemia? Quem é a mãe de uma filha tão mal-parida? E o que diabos é um evento que traz um pouco de vadiagem, pândega, estúrdia e estroinice aos naturais e habitantes da cidade do Rio de Janeiro, se utilizando, para isso, de música brasileira de primeira qualidade?

May 05

Eu Tu Nós Vós ... ele(s)

Um gadjo cansado de teoremas matemáticos e demonstrações públicas de nerdice decidiu em plena manhã da sua vida que nunca mais usaria a primeira pessoa do singular em frase alguma. A partir de julgamentos extraídos de inteliquituais diversos, dentre eles o Blaise Pascal cuja causa mortis fora langor (leia-se depressão conjugada com inaptidão para descobrir se quem veio primeiro foi o ovo ou a galinha), passou a usar sempre o NÓS pra se referir desde o sexo de ontem à noite até o resultado mais estapafúrdio no pinball da esquina.
 
Luís Boça , autor da belíssima frase " xaveco é isso aí meu; é igual minigueime: um dia você pontua mais, outro dia você pontua menos, mas na regra geral, você tem que tar na média, tem que honrar suas calças, meu", trata-se de um típico usuário do NÓS para qualquer frase que envolva ele e... ahn... mais uma pessoa. Além de possuir o irremediável defeito de ser paulistano, feio e viciado em videogueime, Boça¹ representa o típico comportamento do chato average; aquele que pensa que é o supra-sumo da diversão em grupo para no final constranger seus considerados "amigos" com comentários que, de tão sem-noção, soam irremediavelmente cômicos.
 
Pois bem: partindo do pressuposto que somos todos (arght, usei o NÓS) feitos por personalidades múltiplas, muitas vezes conflitantes, paradoxais, não é de todo incorreto usar a segunda pessoa do plural para justificar os mais diversos comportamentos. A frase "não considerAMOS ser injusta a posição do presidente Morales no que tange a Petrobras" soa bem mais abrangente, quiçá interessante, que "não consideO ser injusta blábláblá". Usar o NÓS faz com que meio mundo preste atenção no SEU discurso, que não é necessariamente NOSSO nem o de NINGUÉM.
 
Experimente dar uma de Boça². E diga alguma frase do horóscopo de hoje, daqueles bem obscuras, usando o pronome certo ( que todo mundo a esse ponto já sabeMOS qual é). 
 
Impossível de não convencer ao seu melhor amigo que a lua com ascendente em Vênus e descendente em Câncer (?) fará com que NÓS tenhaMOS o melhor dia de NOSSAS vidas. Mesmo que VOCÊS sejam de signos diferentes.
 
Ou então, dê uma de Lourdes, a maluquete da adorável comédia romântica Crímen Ferpecto. E crie esse monólogo do amor-demais:
 
"Trocávamos no máximo três beijos por vez; dois no rosto e um nos lábios, roçando de leve. Raramente encostávemos nossas línguas; considerávamos tal gesto extremo demais para ser exibido aos olhos dos outros.Claro que quando estávamos juntos, deitados na mesma cama, não nos furtávamos de nos beijar como amantes usuais - incluindo, é claro, o famoso beijo francês entre outras práticas indescritíveis. Mas, no fundo, nos gostamos demais para sentirmos vontade de trocarmos, com uma luxúria que beira a obscenidade, os beijos e carícias dos namorados recém-definidos em público."
 
Quem está falando esse discurso? É um NÓS, resumido pela fala de uma pessoa porém: VOCÊ ou ELA. Independente de qualquer análise imediata, percebe-se de primeira que é a opinião de UM , e não do OUTRO.
 
Veja só:
 
"Trocava com ela no máximo três beijos por vez; dois no rosto e um nos lábios, roçando de leve. Raramente enconstava sua língua na dela; considerava tal gesto extremo demais para ser exibido aos olhos dos outros. Claro que quando estavam juntos, deitados na mesma cama, não se furtava de beijá-la como amantes usuais - incluindo, é claro, o famoso beijo francês entre outras práticas indescritíveis. Mas, no fundo, gostava demais dela para sentir vontade de trocar, com uma luxúria que beira a obsecinidade, os beijos e carícias dos namorados recém-definidos em público."
 
Ou ainda:
 
"Trocava com ele no máximo três vezes por vez; dois no rosto e um nos lábios, roçando de leve. Raramente encostava minha língua na dele; considero tal gesto extremo demais para ser exibido aos olhos dos outros. Claro que quando estava com ele, deitada na mesma cama, não me furtava de beijá-lo como uma amante usual - incluindo, é claro, o famoso beijo francês entre outras práticas indescritíveis. Mas, no fundo, gosto demais dele para sentir vontade de trocar, com uma luxúria que beira a obscenidade, os beijos e carícias dos namorados recém-definidos em público."
 
Óbvio.
 
Não é nunca a mesma coisa.
 
Eu tu vós... ele(s)?
 
Se fosse pra dar no mesmo não existiriam esses pronomes todos, é claro. Mas que é divertido mexer nos discursos a ponto de virarem aquela "outra coisa" inesperada... é sim sinhô.

 
¹Claro que os que estão acostumados a passar por aqui desde idos de 2005 devem estar pensando que ando usando algum tipo de droga virtual capaz de me fazer enxergar valor em Hermes e Renato e Alechat. Porém, desde que comecei a me embrenhar pelo maravilhoso mundo dos estudos da ECO - e aí se incluem de análise de sistemas operacionais ao estudo das técnicas de filmagem em documentários - passei e enxergar certos valores no discurso cotidiano que antes passavam desapercebidos (ou marcados por um leve torcer no narizinho comprido), como o uso indiscriminado das pessoas pelos pronomes que dão o título a esse post de quinta-feira. 
 
² ah sim: me lembrei que o Boça existia por causa do Henrique, veterano meu, que escreveu um post simpático (e insincero ao meu ver) sobre esse meu blógue. Stalkeeeeeeeem micows.
April 29

Teoria 1

            
 
Todos nós deveríamos ser feitos a partir de uma mistura ideal  envolvendo fumaça verde, música de elevador, suicídios e apertos de mão.
 
Fumaça verde para podermos nos misturar com o vento e formar nuvens da cor do urânio enriquecido e dos brotos de feijão.
 
Música de elevador pra que todo mundo consiga se assobiar fácil por aí.
 
Suicídos pra gente se lembrar que é dono do nosso destino.
 
E apertos de mão pra lembrar que a gente é a vida dos outros também.
 
A fumaça verde se espalharia por aí, sem casa nem fronteiras. A música de elevador tocaria calminha, macia como algodão cru, envolvendo todos os seres imaginados. Os suicídios caíriam ruidosos e seriam chorados com chuvas de gotas da cor do céu, pois estaria comprovado que a vida é amarela - e quando ela se vai, do verde só sobra o azul mesmo.
 
E os apertos de mão seriam mais apertados que um abraço, tão bons quanto chocolate e gozos da infância. Quando uma nuvem verde apertar a mão de outra, elas devem se entrelaçar, e se contorcer, e se beijar, e de preferência soltar músicas de elevador que terminam com versinhos de amor.
 
Depois dos apertos de mão, as duas nuvens feitas de fumaça verde deitam no céu grande em um travesseiro de estrelas. E sai uma musiquinha que diz assim:
 
"fica comigo hoje à noite
  que o dia já vai nascer
  fica comigo hoje à noite
  que eu quero acordar com você"
 
Quando as duas nuvenzinhas acordam, elas decidem se vale a pena se separar ou continuar dormindo. Normalmente, elas se separam, e daí ambas cometem o suicídio. E assim vai, toda vez que elas prometem deixar pra lá o amor.
 
Não que o mundo seria melhor com fumaças verdes, músicas de elevador, suicídios e apertos de mão. É sempre a mesma história, não?
 
Mas poder voar... mesmo sabendo que existem rodamoinhos, galhos altos e arranha-céus... seria maravilhoso.
 
Simplesmente.
 
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Amanda Meirinho

Occupation